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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Da natureza das Deusas Mães


A Mãe é um arquétipo universal. Todas as mitologias que eu já tive a oportunidade de estudar tem a Mãe em seus mais variados aspectos e foi essa divindade que eu escolhi cultuar. Por isso, as questões de como a mãe trata e cuida dos seus filhos - e de como isso é uma parte de sua natureza que não pode ser modificada - sempre foi uma questão muito presente nos meus estudos. Não apenas literalmente, mas também simbolicamente, já que eu ainda não tenho filhos.

Por conta disso, esses dias atrás, uma amiga veio me perguntar sobre esse “lado negro”, destruidor das divindades mães. Fiquei refletindo enquanto ia responder e acabei escrevendo esse começo de ensaio de mitologia comparada, repleto de ideias e impressões pessoais. Aí vai:

Lâmina de Deméter do "Oráculo da Deusa"
usada em um altar.
Quando pensamos em Deméter, sempre pensamos na mãe nutridora. Mas para que exista vida, é necessário existir morte. Quase todos os elementos que consumimos, mesmo os vegetais, são baseados na morte de outro ser. Quando a mãe Deméter proporciona o trigo para alimentar os humanos, é graças ao sacrifício de sua própria filha. A descida de Perséfone é, na verdade, a sua morte. Quando Deméter sofre por Perséfone, ela sofre pela morte da filha, e por isso a colheita é sempre um momento de sofrimento. Todos os anos, ela sente a dor desse sacrifício e por isso ela toma seus epítetos negros (Brimo e Erínia, ambas com o signifcado furiosa; Melaina, a negra; etc). Mas a perda é parte da natureza essencial de Deméter, como também é de Gaia e de Rhea. Está no âmago das deusas mães da terra a natureza dúbia da maternidade - as que criam e que destroem, as que ganham e que perdem, sempre.

Para punir homens e deuses, Deméter faz com que não haja colheita. Ou seja, sem alimento,  a mãe priva seus filhos de sua parcela de vida. A nutridora se transforma naquela que nega, que pune e que faz com que todos morram pela privação. Esse é o lado negro de um dos aspectos de Deméter: a mãe que nega sua natureza essencial de nutridora. E com isso traz a escassez e a morte. Eu não acredito em deuses feitos inteiramente de bondade, que cuidam de todos e que amam seus filhos. Dentro dessa perspectiva é muito natural que Deméter seja a mãe que nutre e que mata.

Percebo essa mesma natureza em outras deusas. Quando fiz um dos meus únicos contatos com Lilith, senti que ela tem essa natureza de uma forma muito forte, muito acentuada. Inicialmente, na mitologia suméria, Lilith era uma deusa mãe, demonizada pela visão monoteísta dos hebreus, que foi piorada pelas concepções medievais de demônio que se espalharam pelo ocidente. Mas eu a senti como essa mãe que tem uma natureza dúbia de nutrir e matar de uma forma muito mais pungente do que Deméter, talvez por ser parte de uma teogonia mais antiga do que a dos aqueus, como se essa concepção de deus não tivesse passado por crivos filosóficos, morais e sociais que os gregos impuseram aos seus deuses. Quando eu me lembro da sensação de Lilith, sinto como se eu estivesse no fundo da terra e fosse oprimida por uma enorme força, um potencial, que pode ser criador e destruidor. É um sentimento muito obscuro, muito similar ao que se sente diante de Hécate.

Na mitologia grega, creio que a personagem que mais se aproxima do folclore (se é que podemos chamar assim) criado sobre Lilith é a Lamia, a mulher enlouquecida que se transforma em um monstro e mata os próprios filhos. Depois disso ela vaga pelo mundo comendo criancinhas. É possível perceber a relação dessas histórias com as lendas das strix e stregoni, os seres noturnos da Itália e da Europa Oriental, que influenciaram as concepções ocidentais de bruxas e vampiros. Existe todo um folclore medieval por trás dessas figuras que infelizmente os neopagãos tendem a considerar mais do que o mito sumério ou as naturezas ancestrais das mães nas mitologias pré-cristãs.

Penso também na natureza negra da mãe como Nanã, que abandona o filho doente Omulu, que acaba sendo criado por Iemanjá. Nanã também é uma deusa que trata de questões como morte e renascimento, sendo a deusa da lama, da lua, profundamente ligada aos mistérios do nascimento.

Poderia citar outras, de muitos outros lugares, todas comprovando que a mãe criadora também possui em si o poder de destruir sua criação.

3 comentários:

Qelimath disse...

Olá Inês,

Excelente artigo.
É bem comum as pessoas abraçarem somente um aspecto destas deidades, seja o de mãe nutriz ou mãe assassina, mas nunca completamente.

Há também na África a deidade Iyami Osoronga, que é Mãe e também "assassina", e assim vale entrar no rol destas deidades.

O mais interessante é notar que entre algumas tribos indígenas brasileiras, ainda existe a visão de que o filho seja a propriedade e responsabilidade da mãe, e que ela tenha o poder de vida e morte de seus rebentos. Tanto que se ela voltar da floresta com os braços vazios, ninguém jamais a questionará sobre o ocorrido. Até mesmo crianças novinhas não saem do risco de serem mortas pelas suas próprias mães se elas assim decidirem.

Não penso que isto seja pura crueldade. Estas culturas devem ser respeitadas pelo que elas são, por mais que pensemos que estes costumes sejam barbárie.

Mas infelizmente, o homem branco está chegando lá na floresta para encher estas mães com pensamentos diferentes (especialmente sobre culpa e danação) e valores diferentes (sobre a vida), sem interpretar este elemento dentro da cultura onde está inserido.

Um abraço!!!

Leonardo M. P. disse...

Alguém já imaginou uma mãe que mata sua criança como forma de proteger de um mau vindouro? Como em uma crise, ou durante uma peste muito severa, onde ela vê que se a criança for continuar viva, ela morrerá de qualquer forma, porém viva ela sofrerá muito mais?

Que existe a severidade no aspecto materno, de fato existe, mas não imagino que essa severidade seja punitiva sempre.

Aliás, bom texto Inês!

Leonardo.

Rondnelly Nunes disse...

Leonardo, li seu comentário e me senti obrigado a compartilhar, visto que de certa forma senti isso.

Minha mãe, há alguns anos, me contou um sonho: nele, alguém tentava me matar. Mas ela, sentindo "pena" de mim, preferiu ela mesma me matar pra garantir que a morte fosse instantânea e assim me privar de sofrimento. E a forma com que ela me contou esse sonho foi muito emotiva.. deu pra perceber como foi forte, mas deu também pra sentir como esse foi um impulso, a reação primária dela ao ver o filho em perigo.

Criou, nutriu, matou - um ciclo completo.